23 de novembro de 2008

"Well it's been a long time, long time now."


Estava a pensar no que me havias falado à uns dias atrás: a valorização das coisas pequenas da vida. Sentada naquela cadeira (sempre tão confortável, sempre com aquele balançar e cheiro característicos de outras vidas que vivemos nesta vida, de mortes que tivemos sem morrer), observava a Serra de Sintra. Hoje tinha algo de diferente. Não era algo visível para outros olhos, só os meus olhos (que, neste caso, são substituídos pelo coração, pois as memorias vêem-se com o coração) é que captavam esses pormenores. O que via era tão belo! As cores, aquela sublime névoa que a envolve em mistério, as formas, a História de Portugal (ali representada pelo Palácio da Pena e o Castelo dos Mouros), tudo! Que bem-estar sentia por viver neste sitio, neste subúrbio. O facto de nada disto ser permanente, concede uma beleza inexplicável. Olhava para a paisagem, como quem olha para a vida, com saudade. Não a saudade que sente no agora, mas a saudade que irá sentir. A condição de limitada imposta pela vida é fascinante. (Vendo bem tudo o que nos rodeia é produzido em edições limitadas.) Num universo infinito de possibilidades, eu nasci assim, com uma certa predisposição para me tornar num certo individuo, igual a tantos outros, diferente de tantos outros. Nasci num determinado sitio e passei por determinadas provas que me foram colocadas, mas não me deixo determinar por elas (mas sim, pelas escolhas que faço). Não quero ser como as bruxinhas (não sei qual é o seu nome verdadeiro, sempre lhes chamei bruxinhas) que se deixam guiar pelo vento. Quero ser o vento! (não para conduzir pessoas, mas para me conduzir). Gostava que hoje fosse uma daquelas tardes maravilhosas de verão, com pedaços de calor, queria abrir a janela e não sentir frio (só pelo facto que não me quero constipar outra vez). A ideia de me poder enrolar na natureza, deixando que os nossos contornos se tornem disformes e confusos é aconchegante. Faz-me sentir em paz de espírito e no entanto é algo tão simples. Estou apaixonada pela metafísica. Ah se eu tivesse um dom, que fosse o de fazer malabarismos com as palavras, saber trabalhar com elas, assim como tu fazes. E escreveria até não poder mais. Criaria pseudónimos, heterónimos e outros ónimos. Ai mas não ia ser suficiente, ia querer sempre mais. Ia querer falar com silêncios e pintar a alma de azul-cor-do-mar-que-só-vemos-em-fotografias. Não, não! Preferia pintar com a cor dos sorrisos e dos risos, fazendo linhas curvas com o brilho dos olhos e salpicos de alegria. Usaria outros elementos formais da linguagem plástica para tornar a pintura mais abstracta. Que bonita que ficaria! Acho que é a incidência dos raios solares que dão aquele aspecto áureo e calmo à serra.




"Well it's been a long time, long time now
Since I've seen you smile
And I'll gamble away my fright
And I'll gamble away my time
And in a year, a year or so
This will slip into the sea
Well it's been a long time, long time now
Since I've seen you smile."
Nantes, by Beirut





Ps: Já tinha saudades de ouvir Beirut. (Hoje é daqueles dias em que nunca mais me calava.)

4 comentários:

Jojo disse...

ahahahah testamento xD

Daniela disse...

YEAH! Viva a Sintra, viva Fernando Pessoa, viva Desenho, viva à Física, viva a nós!!

Jojo disse...

viva a tua maluquice e a minha paciencia para atura-la xD

Eduardo disse...

Obrigado por leres o Sem olhar para trás.
E deixa-me que te diga que gosto imenso da tua escrita...E se nesse dia estavas nos dias em que podias sempre continuar a falar, então que tenhas mais desses momentos, e que os escrevas, porque é um prazer ler.
cumprimentos