
De tão cansado estar, o meu corpo já não dorme.
As horas passam, tal como a minha cabeça pela almofada,
como se dois estranhos se tratassem, com apertos de mãos e toda uma formalidade pomposa.
A vida lá fora impede-me de encontrar descanso na minha inconsciência.
Com todas as duas luzes, formas e sons.
As sombras dançam, jocosas, gozando com a minha aparente incapacidade de produção.
Sobrepõe-se o "ter de" ao "querer". Vinga-se a obrigação face à vontade.
E a minha perdeu-se nas minhas ruas de surrealismos estreitos e desconstrutivistas.
Os dias são complexas sucessões de "tenho de's", onde a relatividade temporal transforma-se em ironia. Encontro-me a pensar nos meus "quero's", que na verdade se resume a um: quero quebrar a rotina em que estou trancada.
Sinto a nuvem que os ares escurece, temerosa e carregada, que depressa vem e me enche o coração de medo: um mostrengo que está no fim do mar. Um mar que está prestes a acabar, tornando-se precipício de incertezas, tornando-se futuro.
Futuro, esse, que veio mais cedo do que o esperado. Como sempre, as melhores visitas são as inesperadas.
Pessoalmente, vejo-me vestida num decadentismo tão monocromático, vejo-se vestida numa vontade de pintar aquela tela.
E estas superficialidades (porque na verdade a sua essência revela-se apenas essa) são tão profundamente avassaladoras para assassinar os sonhos, para rasgar planos.
Todo o meu valor vai ser posto em causa durante 120 minutos. Mas 120 minutos em nada se comparam em suficiência face aos 9 meses de trabalho anteriores.
Torce-se o estômago, enche-se a cabeça de grandes vazios de matéria.
O meu corpo já nem sabe quando está a dormir. A linha entre a consciência de estar acordada e a subconsciência acordada está demasiado abstracta.
Sucumbo ao espasmo, tentativa corporal de involuntariamente permanecer desperta.
Coloco a hipótese de estar a dormir em estado de vigília, vivendo durante a actividade onírica. Não quero fazer parte das legiões de subconscientes que se agrupam nesses quotidianos e se julgam acordados.
Acorda-me do sonho! Tirem-me a realidade ficcionada!
Preciso da loucura agora, esse mar de grandeza.
Porque o que distingue os semelhantes dias, são os nomes e
as tuas horas.
3 comentários:
Vais ver que tudo vai correr, corre sempre. Toda esta nuvem escura vai passar e depois aparecem as cores! Tudo se vai compor, eu acredito nisso...
e o senhor sarapintado vai-te ajudar :D
Obrigado :)
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