6 de agosto de 2009

Utopias, fantasias e outras -ias


Ela era tão bonita. Nunca tinha visto nada assim na vida. Ela tinha toda a ingenuidade do nascer do sol e a força do pôr-do-sol. Os seus olhos vibravam por cada centímetro por ele observado. Era impossível, um hiper-realismo, "só podia". Projectava nela todos os seus sonhos e esperanças. Era tão bom sonhar com ela! Com a casa que compraram em conjunto, com os filhos que tiveram, com os netos que os filhos lhes deram.
Ela, ela era tanto e não lhe pertencia, só pertencia aos seus delírios, pertencia a ela, senhora do seu nariz, ou talvez fosse pertence de outro. Mas ela estava ali, sentada, iluminada com a luz morna e terna de uma estrela que lhe criava uma áurea como se uma deusa se tratasse e ele era o único que tinha desenvolvido a capacidade de a ver daquela forma. "Porque estás sozinha? Em que pensas tu? Se reconhecesses a minha existência apagaria toda essa solidão do teu pensamento..."
Todos os dias ele prestava culto à sua divindade, todos os dias ela cumpria o seu dever de pousar distraída para ser tocada pela luz. Sem orações, sem palavras, a missa rezava-se com o olhar, com o pensamento.
"Queria saber o teu nome...Ou não. Sei lá! Se isso fosse bilhete suficiente para poder observar o teu sorriso todos os dias..."
Ia conversando com ela, ela ria-se das historias dele, tinha muita facilidade em rir-se e ele gostava disso. Era tão fácil ficar agarrado a ela, drogado com a sua voz, dependente do seu movimento. Era tão fácil deixar de ser ele para se misturar na essência dela. Mas ela não, ela era independente de todos os restantes mortais, ela permanecia sempre ela, tal como uma deusa, intacta, impermiável, no entanto ele não a achava feita de mármore. E isso aproximava-a do mundo mortal, do ser imperfeito que era ele.
Oscilava um pouco, sabia que não seria para sempre, que mais tarde ou mais cedo ela acabaria por lhe fugir porque por mais que tentasse ela nunca lhe pertenceria, aquela alma dela nunca caberia na gaiola do seu coração. Ele sabia. A verdade esmagava-o à noite, mal os raios de sol se escondiam. Temia pela sua vida, via a sua destruição, ansiava pela manha, corria desesperado para apanhar o comboio onde ela estaria. Era devoto.
Quando ela lhe entrava na cabeça e eles começavam a falar todos os medos desapareciam, ele mostrava-se capaz de a amar, capaz de o gritar ao mundo, de o sussurrar ao ouvido dela. Porem ela não prestava atenção aos sentimentos deles, eram gotas num dia de chuva (eram tantos que conta-los seria impossível, até para a imortalidade dela!). Ela não se mostrava interessada, quanto mais ele se expunha, mais ela o ignorava.
"Ouch" Doeu bastante, foi um duro golpe, "quem diria que tamanha delicadeza de mãos daria um soco tão forte, de fazer virar o estômago de pernas para o ar?" O ar faltava-lhe, asfixiava nele próprio, o desprezo dela, o seu desdém, a sua superioridade agora eram aniquiladoras, fatais.
No dia seguinte, os seus pés pesavam em cada passo que dava. Ela entrou toda santíssima, cumprindo o seu ritual. O seu lugar estava preenchido, olhou-o, mais que uma vez e resolveu sentar-se ao lado dele.
"Olá, posso sentar-me?" E simplesmente sentou-se, adivinhando a resposta dele.
"Já tinha reparado em ti. Haha, bem eu não sei como fazer isto, mas...gostaria de conversar contigo, pareces-me simpático..."
"Eu já te conheço, sonhei contigo todos os dias, imaginei-te, amei-te e tu traíste-me."
"Traí-te?"
"Sim! Fugiste com a tua natureza. Abandonaste-me, quando fui eu que te salvei e tu deixaste-me...simplesmente..."
"Desculpa..."
Nunca mais se voltarão a ver.
Todas as deusas são esculpidas da pedra, não são feitas de carne e osso porque a pedra é eterna e a carne e o osso apodrecem e estragam-se.

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