E todas as noites ele suplicava-lhe: "tira-me daqui! tira-me daqui!". Tenta, juro que tenta.
Sempre que o vai resgatar, ele desaparece-lhe da vista. É a miragem, o fantasma da sua criação.
E a noite vem e trá-lo outra vez, pedinte do afecto dela, prisioneiro de um espaço, de um tempo. Quase humano, mas sem ser. Tem pontas. Às vezes quer agarra-lo com tanta força que nem o nascer do dia seria capaz de o arrancar para o buraco onde vive em tempos de sol. Os braços fraquejam com tanta facilidade. A alma fraqueja com tanta frequência. Os joelho falham e ela vê-se perdida num corpo fraco, que não lhe responde.
"Tira-me daqui!", volta. "Mas como se o corpo não funciona, se a mente pensa e o corpo não faz e tu foges de mim e dos meus braços débeis e me deixas sempre entregue à insónia?" "Por favor..."
Nada. Tudo desfalece. Persistem as 21 gramas de ser que nos restam, quando mais nada há, quando tudo o que seriamos se perde por entre as partículas do ar. Assim fica ela, no desamparo, mais os 60 quilos de inutilidade. "Tira-me daqui, tira-me de dentro dos meus pensamentos."
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