23 de dezembro de 2008

Histórias de pessoas imaginárias que eu vi realmente enquanto sonhava acordada


...e chegou a noite. Como ela odiava a chegada na noite. Parecia que a sua ausência ainda se tornava mais pesada. E tornava-se mesmo. Ficava horas à espera, os ponteiros faziam-na tocar a loucura. Então tudo se tornava irritante, tudo era insuportável e ela ficava cheia de vontade de correr até onde aguentasse. Mas os seus pés estão colados a uma vida, estão colados a responsabilidades e obrigações. Respira fundo. Põe uma musica. Melancólica e triste.
Fazia hoje dois anos que ele tinha partido e, no entanto, ainda o sentia tão vivo dentro dela. Ainda lhe custa falar sobre o assunto. O amor deles era tão completo e hoje apenas restam umas paredes e umas fotos para contar a história.
Quando os meus olhos conheceram os dele, entendi o que era a magia. Foi como se tudo tivesse parado, só havia aquele momento. Foi como o nano-segundo que antecedeu o Big Bang, foi a maior ausência de palavras que alguma vez tinha visto. O seu sorriso mudou, os gestos, o olhar, ele fazia dela uma melhor pessoa. E ele amava o seu sorriso, a sua inteligência, o seu riso (e que riso estranho ela tinha!), a sua ternura. Ela era um mistério que o seduzia. Ela rendeu-se aos seus encantos. Tinha passado a minha vida toda a fugir, não podia sentir-me aprisionada por isso fugia, a minha insegurança afastava-me de quem gostava de mim. Ele segurou-me a mão e disse que eu estava protegida. E tinha razão...
O tempo foi passando, um mês parecia um ano (e a eles só lhes foram dados dois meses). Aqueles passeios à chuva, pela praia, pelas ruas estreitas da cidade do Porto. Mas a vida toma caminhos que ela mesma desconhece, esses caminhos de razão incerta. E fez-se de noite.
Ah malditos sejam aqueles dois outros olhos que com a raiva e ciume quiseram rouba-la, retirar-lhe a inocência! Malditas sejam aquelas outras mãos que contra ele premiram o gatilho e mataram uma alma (a dela) e um corpo (o dele)! Malditos sejam aqueles pés que, juntamente com as pernas, fugiram e abandonaram aquele corpo a esvair sangue nas mãos de uma alma partida.
Sentiu tudo: o ultimo bater do seu coração, o ultimo sopro. Disse-me "Amo-te, sempre amei. Mas vais ter de seguir em frente". Sempre foi o mais racional. A vida escorreu-lhe dos olhos, até que estes se fecharam, para sempre. Senti um frio nas veias, sentia-me a congelar, sai de lá nem esperei pela policia. Não conseguia pensar, a dor era tanta. Queria vomitar. Estava perdida, sozinha, tinha de desaparecer. A culpa era dela porque não se pôs à frente, porque o conheceu. O que é que se pode fazer quando a alma morre? Arrastou-se pela cidade, já não tinha para onde ir. Só lhe restava uma solução para acabar com o que (não) sentia. Foram os comprimidos mais difíceis de engolir da sua vida, soltou um riso irónico e bebeu o resto do whisky. Entrou em espiral, o seu corpo tremia, suava, a sua visão estava turva, até que o seu corpo colapsou.
Abriu os olhos, estava tudo branco e desfocado. Onde é que estava? Tentou levantar-se, mas o seu corpo não respondia. Ouvi vozes, todavia não as conseguia entender. "Está tudo bem, não se preocupe, você tentou suicidar-se, mas nós agora vamos tomar conta de si". Tinha falhado, nem para acabar com a sua vida ela era boa! "Teve sorte. Mais uns minutos e não tinha sobrevivido". Que revolta! Que raiva! A voz sabia lá o que era a sorte!
Estive internada oito meses. Demorei um ano a aprender a viver, a aprender a ter vontade de viver! Sofri de anorexia, recusava-me a comer e a falar, tinha pesadelos todas as noites. Quando, finalmente, tentei voltar a comer, o meu corpo rejeitava os alimentos, para alem disto tudo tinha de lutar contra uma depressão. Pensou em desistir várias vezes, mas não lhe foi permitido.
Agora sabe dar importância aqueles oito meses da sua vida, quando vai na rua e vê os vivos que mortos parecem, reconhece a sua sorte. Tive de bater várias vezes no fundo para abrir os olhos. Depois do incêndio, eu era um grande terreno de cinza, onde tudo estava morto, mas a cinza é boa para fertilizar o solo e aos poucos vi nascer pequenas plantas.
Mudou-se para Lisboa, começou uma nova vida e é feliz. Quando se recorda dele é com saudade, aquelas saudades que sentimos do sol do verão. Sabe que a felicidade que agora sente em nada é igual a que sentia quando estava com ele. Nem queria que fosse! Já se aguenta naquelas noites mais solitárias. Deixou de sentir aquela loucura, aquela turbulência espiritual.
Ainda o sente. Quando o vento corre quente por entre os seus cabelos, sente-o. Um dia vamos recuperar o tempo perdido, pensa alto.

3 comentários:

Daniela disse...

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