28 de setembro de 2012

De manhã é que se começa o dia.

Todos os dias acordo e penso como é que me deixo morrer aos poucos, todos os dias penso nessas duas boas amigas que andam sempre lado a lado. Todos os dias penso no porque das coisas serem o que são e não serem outra coisa qualquer. Talvez sejam. É tudo uma questão de perspectiva. E um pouco de sentidos bem apurados. Penso no outro corpo que podia habitar. Na outra alma que poderia ser. Penso no escuro que virá depois. Tento relembrar se sonhei e muitas vezes fico a pensar naquilo que sinto. Sempre me fascinou o fogo. E a agua que sai da torneira. E a noite calma com as luzes da cidade. Muitas vezes desejo ser o vento, pertencer a todos e não ser de ninguém. De vez em quando vem as questões dos perdões, mas evito ir por esses caminhos porque toda a gente sabe onde isso vai dar. Fico a adorar a minha almofada, mas não o colchão, o barulho dos carros e ocasionalmente o do comboio. Conhece-se muita gente nos comboios. Conhece-se muita gente, mas ninguém nos conhece. Quem é que quer conhecer seja o que for? Para além do trabalho que dá, há sempre a possibilidade do sofrimento, de sermos desinteressantes, de não gostarem, há sempre o medo da porta que pode ser fechada a qualquer momento, abrimos o nosso euzinho e depois estamos expostos, parece assustador. Devo ser uma senhora antiga. Entretanto penso nos restantes sítios onde podia estar a acordar, na pessoa que podia estar ao meu lado a dormir. Penso na relatividade que tudo na vida tem. Eu tenho tendência para isso. Penso nas coisas que não existem, mas por breves instantes. Penso em como deve ser chato ser um relógio. Preferia ser um pincel ou um rolo fotográfico. Talvez uma caixa das memórias. A minha falha-me muito, mais do que aquilo que eu gostaria. Se calhar tinha a vida mais facilitada se fosse um caderno bonito, mas eu tenho tantos e não sei o que lhes fazer. Nunca somos aquilo que queremos ser, pelo menos nos momentos decisivos. O que são momentos decisivos? Todos? Decido levantar-me e ir tomar o pequeno-almoço. Um dia ainda vou pedir à minha mãe para contratar um detective privado para me seguir.

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